Lara

Sabes que fiquei sem rato, e eu até queria muito trabalhar mas não tenho scroll... e tu estás daquela ressaca que já passou há umas quantas horas mas perdura-se-lhe a memória que é como quem diz que se arranja uma desculpa para não fazer mais nada que não seja divagarmos no papel.
Eu pego em papel de cenário enquanto tu seguras o volante: estendo-o pelo pára-brisas e com um lápis começo a riscar com traços largos e soltos: desenho formas que são plantas, e depois um corte; rabisco um percurso e marco melhor um momento, para ter a certeza que percebeste. "Agora seguro eu no volante", e seguro, estico-me por baixo dos teus braços, tento manter o carro direito enquanto tu riscas por cima dos desenhos, desenhos quase iguais, com um traço ligeiramente diferente... e é mesmo isto!, percebemos sem grande ânimo, enquanto o carro anda sozinho - tirando aquelas partes em que tu endireitas um bocadinho o volante, só de vez em quando, porque a direcção está meio desafinada - mas a maior parte do tempo vamos ali as duas, levadas pelo teu carro, com as mãos tombadas no colo, a cabeça ligeiramente inclinada - tu para a esquerda, eu para a direita-, a olhar para o papel que cobre o pára-brisas com as nossas vidas explicadas, e no tempo de chegarmos a casa percebemos que, não é mais nada, é só mesmo isto...


- ...então e amanhã...?
- Amanhã venho cá tomar o pequeno-almoço, pode ser?

2 comentários:

margarida. disse...

(acho que o "0 comentarios" é mesmo isso...)

porque o vazio também desenha.
e o papel de cenário que forra os estiradores é o que suporta tudo o que as nossas canetas de tinta rotring, ou lapiseiras de minas afiadas, dentro daquele estojo onde o afia-minas já tombou e está tudo sujo de grafite, quiserem riscar.

LULU disse...

estojo verde, com rectangulo em pele castanho num dos lados onde escrevemos o nome com um marcador preto, para no caso de o perdermos, se saber de quem é... como na primária. :)